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01/04/2020 às 13h00

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Ataque, recuo e panelaço


Fora do Contexto

Ontem pela manhã, à porta do Alvorada, o presidente usou uma fala feita à véspera pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, para defender o isolamento vertical. Ghebreyesus alertou para as dificuldades financeiras que os mais pobres enfrentariam por conta da quarentena. Bolsonaro não citou que havia um contexto no alerta: o diretor-geral defendia que governos deveriam adotar políticas públicas para mitigar estas dificuldades. Não defendia o fim do isolamento. A OMS precisou reiterar sua posição nas redes por conta da distorção. 

Irritação Geral

O ataque do presidente, distorcendo a fala do diretor-geral da OMS sobre preocupação social, irritou a muitos no Congresso. Está na mesa de Bolsonaro, para sanção, o auxílio emergencial de R$ 600 que serve justamente para ajudar nisso. E, no entanto, há hesitação em assinar. O Ministério da Cidadania cogita pagar o auxílio a partir de 16 de abril. “Não parece tão emergencial”, se queixou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. “Governo tem toda estrutura para organizar o pagamento antes. É um valor mínimo, não vai resolver os problemas, mas vai dar previsibilidade para os brasileiros superarem os próximos três meses.” 

Mudando o tom

À noite, Bolsonaro voltou em cadeia nacional de rádio e TV para um novo pronunciamento  sobre a crise do coronavírus. O tom foi outro, recuou do confronto. “Minha preocupação sempre foi salvar vidas”, afirmou. “Tanto as que perderemos pela pandemia como aquelas que serão atingidas pelo desemprego, violência e fome.” Bolsonaro não fez defesa enfática da política de isolamento vertical, — em que apenas os mais vulneráveis à Covid-19 ficam em casa —, na qual vinha insistindo. Mas também não abraçou a horizontal, prática adotada em boa parte do mundo e defendida tanto pela Organização Mundial de Saúde quanto seu próprio Ministério da Saúde. Insistiu, porém, no apelo que, ele acredita, o permite alcançar as camadas mais pobres da população. “Não me valho dessas palavras para negar a importância das medidas de prevenção e controle da pandemia, mas para mostrar que, da mesma forma, precisamos pensar nos mais vulneráveis. Essa tem sido a minha preocupação desde o princípio. O que será do camelô, do ambulante, do vendedor de churrasquinho, da diarista, do ajudante de pedreiro, do caminhoneiro e dos outros autônomos, com quem venho mantendo contato durante toda minha vida pública?” 

Isolado

No pronunciamento anterior, escrito no "gabinete do ódio" e com apoio da ala ideológica do governo, Bolsonaro partia para o confronto com autoridades de saúde e governadores. Teve como consequência seu isolamento político . Não só o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta manteve a recomendação de quarentena como se afastaram dele até auxiliares importantes, casos de Paulo Guedes, da Economia, e Sérgio Moro, da Justiça. Igualmente se afastaram os generais palacianos e o vice-presidente Hamilton Mourão, embora estes criticassem mais o tom do que a intenção de defender a economia perante o isolamento. Foi a partir de uma conversa com o ex-comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, que o presidente começou a decidir pela mudança de tom nos discursos. Para esta nova aparição, Bolsonaro ouviu os ministros Walter Braga Netto, da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo — ambos generais —, além de Tarcísio Freitas, da Infraestrutura.

 Panelaços

Enquanto Bolsonaro discursava em rede nacional, pipocavam panelaços pelos quatro cantos do País. O presidente parece  ainda estar calibrando seu discurso à população e, provavelmente, retornará à TV nos próximos dias (certamente ignorando os panelaços).


*Com informações do G1, Folha de São Paulo, Agência Estado e Veja


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